quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Entrevista Ariane Feijó


arquivo pessoal



1)  Comunicólogos, assim intitulados por muitos, por formação em áreas da comunicação são contratados por muitas empresas para exercerem a função de Relações Públicas.
Observamos que muito do que você aborda nos eventos e encontros aos quais realiza, é o fortalecimento e inserção do profissional de Relações Públicas . Como você percebe este movimento dentro das organizações?  Pode ser falta de posicionamento dos Relações Públicas na hora da contratação ou falta de esclarecimento das organizações por acharem que qualquer comunicólogo pode exercer a função de RP?

Nas grandes organizações, o papel da função e do profissional de RP costuma ser bastante claro. E este, via de regra, está ligado às áreas de tomada de decisão (presidência e diretoria). Não é por não ter um "cargo" de RP dentro de uma organização que esta função é menos valorizada. Um administrador, dentro de uma empresa, normalmente também não tem o cargo de “administrador de empresas” e trabalha desde a contabilidade até o RH, não sendo por isso menos valorizado no mercado.

O que defendemos com a Todo Mundo Precisa de um RP é a aceleração da compreensão do que somos e do que fazemos, por parte do mercado, e um aprendizado mais global e completo, por parte dos estudantes e profissionais. Temos perdido parte do nosso mercado por não estarmos preparados para nos posicionar, por nós próprios não sabermos a quantidade de oportunidades que temos para atuar. Acreditamos que tem mercado para todo mundo e que este aprendizado que refiro ultrapassa o que é ensinado na faculdade – e exige muita atitude e prática para chegar mais longe.

Nas organizações onde trabalhei sempre se sabia exatamente a hora de contratar um RP ou um publicitário e, ainda, um jornalista. Hoje o que sinto é que as empresas buscam pessoas que resolvam problemas – e aqui incluo a minha empresa. Infelizmente quem está saindo das faculdades não está preparado para isso. Mas, veja bem, não culpo as universidades por isso. Na verdade, não há culpados. Há uma mudança enorme no mercado e na forma de se precisar de comunicação, que é muito maior do que em qualquer outra época. A forma de trabalhar mudou e precisamos aprender isso para ter direito à nossa fatia do bolo.

Acredito que RP é mais do que uma função a ser desempenhada pelos profissionais. RP é cada vez mais uma mentalidade, uma "filosofia de gestão", por assim dizer. Em alguns casos é usada por ter pouca verba, em outras mal usada por desconhecimeto. O profissional de RP deve ser o norteador das estratégias de comunicação, deve fomentar nas pessoas o seu lado RP. Quando preparamos um porta-voz dentro da empresa, estamos fazendo isso. Quando treinamos equipes de venda para atender o público, estamos fazendo isso. Acho fundamental que sejamos reconhecidos como esse profissional de estratégia de jogo, mais do que ganhar cargos e títulos em empresas ou na academia.

Para que isso aconteça, não adianta apenas sair formado em RP. É preciso entender de pessoas, de psicologia, de mercado, do setor específico onde se atua. É preciso entender que RP é mais do que conhecemos até hoje e que quanto mais soubermos lidar com os processos de marketing, design, TI, comunicação, mais espaço teremos no mercado. Temos que começar a fazer as nossas RP com colegas de outras áreas, entender o que fazem e como se relacionam. Facilmente descobrimos oportunidades de trabalho e de facilitar os relacionamentos destes profissionais também.


2)         Graduada pela FABICO/UFRGS, onde conceitualmente os profissionais são muito bem vistos pelo mercado, além de suas especializações voltadas para área da comunicação e Mestranda em estudos da Cultura, você pode dizer que a teoria das escolas foi fundamental na profissional qualificada que se tornou? Teoria aplicada.

Eu nunca parei de estudar, estou sempre lendo, sou super curiosa e interessada. Aliás, estudo marketing e comunicação desde os 15 anos, meu primeiro livro sobre estes temas foi o Princípios de Marketing, do Kotler, que pedi de presente para a minha mãe. Não acredito em notas, conceitos e tampouco em títulos, mas tenho verdadeira fascinação pelo quanto estar perto da academia enriquece a minha prática diária. Neste sentido, sim, tive excelentes professores e uma formação acima da média, complementada pelo meu esforço pessoal.

A gente pode estudar em Harvard, se não souber aproveitar as oportunidades e correr atrás do conhecimento que transforma a prática, não vale nada o título ou instituição. Com certeza a Fabico tem formado a elite da comunicação no Brasil, tenho vários ex-colegas que hoje dirigem ou são donos das suas empresas e com muito sucesso. Mas não acho que faculdade nenhuma faça isso sozinha, o empenho pessoal e a identificação com a carreira escolhida são a fórmula do sucesso.


3)         De que forma você posicionaria o profissional de Relações Públicas dentro de uma organização com estrutura de comunicação já estabelecida?

Sempre ligado à estratégia. Nas grandes empresas, junto à diretoria e presidência. Nas médias e pequenas, junto aos donos e acionistas. Uma função de RP apenas operacional é como tomar remédio sem o diagnóstico de um médico: atua no problema e não na causa. E pode causar danos graves à organização. 


4)         Já há algum tempo há um fortalecimento na inserção de profissionais de Relações Públicas no mundo das artes, museólogos, artistas, curadores entre outros, vem buscando este profissional. No seu site, há a seguinte frase:
“A Public Relations in love with the Arts, married to marketing, committed to the best practices in contemporary communications, and constantly flirting with new ideas.”
Percebemos que nela, ha uma entrega pessoal, amor pelo que você faz e acredita. Você vê o mundo das artes como um direcionamento para os Relações Públicas?

Vejo toda e qualquer profissão com potencial para um RP. Não por acaso, em países como EUA e Inglaterra, há agências de recrutamento para profissionais de comunicação por indústria: saúde, bancos, TI e assim por diante.

Mas, atenção, é preciso conhecer a fundo o que se está trabalhando. Acho temerário profissionais de comunicação que querem trabalhar com museus e instituições e não terem uma formação sólida em história da arte. Não existe arte contemporânea, nem grafitti, nem projeto cultural que se sustente sem conhecimento de história da arte. Na música, idem. Tem que ter intimidade com a técnica. No caso das artes visuais, essa, aliás, é uma das razões porquê não temos mais RPs dentro de organizações: é preciso conhecer o mercado para atuar nele. Quem tem potencial para nos contratar, não percebe este conhecimento e acaba fazendo tudo sozinho na maior parte das vezes.

Tanto estratégias de comunicação como de marketing são como receitas de bolo: podemos dar a mesma receita para 10 chefs diferentes e cada um trará a sua versão do bolo. Aqueles que tiverem mais intimidade com os ingredientes e as técnicas, certamente vão nos surpreender. (Assim como o amor que a mãe ou vó coloca na comida, também dá outro sabor!).


Ou seja: a teoria é a mesma para todos, o que faz a diferença é como a aplicamos, qual a experiência que temos naquilo e com quais ideias apostamos. Para conseguirmos ser criativos é preciso entender a fundo o mercado onde atuamos. Criatividade tem muito a ver com talento, mas o talento se desenvolve muito mais na pesquisa (transpiração) do que na inspiração. Precisamos partir do pressuposto que não somos gênios, mas pessoas comuns. E trabalhar duro para fazer a diferença.

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