1) Comunicólogos,
assim intitulados por muitos, por formação em áreas da comunicação são
contratados por muitas empresas para exercerem a função de Relações Públicas.
Observamos que muito do que você aborda nos
eventos e encontros aos quais realiza, é o fortalecimento e inserção do
profissional de Relações Públicas . Como você percebe este movimento dentro das
organizações? Pode ser falta de
posicionamento dos Relações Públicas na hora da contratação ou falta de esclarecimento
das organizações por acharem que qualquer comunicólogo pode exercer a função de
RP?
Nas grandes organizações, o papel da função e do
profissional de RP costuma ser bastante claro. E este, via de regra, está
ligado às áreas de tomada de decisão (presidência e diretoria). Não é por não
ter um "cargo" de RP dentro de uma organização que esta função é
menos valorizada. Um administrador, dentro de uma empresa, normalmente também
não tem o cargo de “administrador de empresas” e trabalha desde a contabilidade
até o RH, não sendo por isso menos valorizado no mercado.
O que defendemos com a Todo Mundo Precisa de um RP
é a aceleração da compreensão do que somos e do que fazemos, por parte do
mercado, e um aprendizado mais global e completo, por parte dos estudantes e
profissionais. Temos perdido parte do nosso mercado por não estarmos preparados
para nos posicionar, por nós próprios não sabermos a quantidade de
oportunidades que temos para atuar. Acreditamos que tem mercado para todo mundo
e que este aprendizado que refiro ultrapassa o que é ensinado na faculdade – e
exige muita atitude e prática para chegar mais longe.
Nas organizações onde trabalhei sempre se sabia
exatamente a hora de contratar um RP ou um publicitário e, ainda, um
jornalista. Hoje o que sinto é que as empresas buscam pessoas que resolvam
problemas – e aqui incluo a minha empresa. Infelizmente quem está saindo das
faculdades não está preparado para isso. Mas, veja bem, não culpo as
universidades por isso. Na verdade, não há culpados. Há uma mudança enorme no
mercado e na forma de se precisar de comunicação, que é muito maior do que em
qualquer outra época. A forma de trabalhar mudou e precisamos aprender isso
para ter direito à nossa fatia do bolo.
Acredito que RP é mais do que uma função a ser
desempenhada pelos profissionais. RP é cada vez mais uma mentalidade, uma
"filosofia de gestão", por assim dizer. Em alguns casos é usada por
ter pouca verba, em outras mal usada por desconhecimeto. O profissional de RP
deve ser o norteador das estratégias de comunicação, deve fomentar nas pessoas
o seu lado RP. Quando preparamos um porta-voz dentro da empresa, estamos
fazendo isso. Quando treinamos equipes de venda para atender o público, estamos
fazendo isso. Acho fundamental que sejamos reconhecidos como esse profissional
de estratégia de jogo, mais do que ganhar cargos e títulos em empresas ou na
academia.
Para que isso aconteça, não adianta apenas sair
formado em RP. É preciso entender de pessoas, de psicologia, de mercado, do
setor específico onde se atua. É preciso entender que RP é mais do que
conhecemos até hoje e que quanto mais soubermos lidar com os processos de
marketing, design, TI, comunicação, mais espaço teremos no mercado. Temos que
começar a fazer as nossas RP com colegas de outras áreas, entender o que fazem
e como se relacionam. Facilmente descobrimos oportunidades de trabalho e de
facilitar os relacionamentos destes profissionais também.
2) Graduada
pela FABICO/UFRGS, onde conceitualmente os profissionais são muito bem vistos
pelo mercado, além de suas especializações voltadas para área da comunicação e
Mestranda em estudos da Cultura, você pode dizer que a teoria das escolas foi
fundamental na profissional qualificada que se tornou? Teoria aplicada.
Eu nunca parei de estudar, estou sempre lendo, sou
super curiosa e interessada. Aliás, estudo marketing e comunicação desde os 15
anos, meu primeiro livro sobre estes temas foi o Princípios de Marketing, do
Kotler, que pedi de presente para a minha mãe. Não acredito em notas, conceitos
e tampouco em títulos, mas tenho verdadeira fascinação pelo quanto estar perto
da academia enriquece a minha prática diária. Neste sentido, sim, tive
excelentes professores e uma formação acima da média, complementada pelo meu
esforço pessoal.
A gente pode estudar em Harvard, se não souber
aproveitar as oportunidades e correr atrás do conhecimento que transforma a
prática, não vale nada o título ou instituição. Com certeza a Fabico tem
formado a elite da comunicação no Brasil, tenho vários ex-colegas que hoje
dirigem ou são donos das suas empresas e com muito sucesso. Mas não acho que
faculdade nenhuma faça isso sozinha, o empenho pessoal e a identificação com a
carreira escolhida são a fórmula do sucesso.
3) De
que forma você posicionaria o profissional de Relações Públicas dentro de uma
organização com estrutura de comunicação já estabelecida?
Sempre ligado à estratégia. Nas grandes empresas,
junto à diretoria e presidência. Nas médias e pequenas, junto aos donos e
acionistas. Uma função de RP apenas operacional é como tomar remédio sem o
diagnóstico de um médico: atua no problema e não na causa. E pode causar danos
graves à organização.
4) Já
há algum tempo há um fortalecimento na inserção de profissionais de Relações
Públicas no mundo das artes, museólogos, artistas, curadores entre outros, vem
buscando este profissional. No seu site, há a seguinte frase:
“A Public Relations in love with the Arts, married
to marketing, committed to the best practices in contemporary communications,
and constantly flirting with new ideas.”
Percebemos que nela, ha uma entrega pessoal, amor
pelo que você faz e acredita. Você vê o mundo das artes como um direcionamento
para os Relações Públicas?
Vejo toda e qualquer profissão com potencial para
um RP. Não por acaso, em países como EUA e Inglaterra, há agências de
recrutamento para profissionais de comunicação por indústria: saúde, bancos, TI
e assim por diante.
Mas, atenção, é preciso conhecer a fundo o que se
está trabalhando. Acho temerário profissionais de comunicação que querem
trabalhar com museus e instituições e não terem uma formação sólida em história
da arte. Não existe arte contemporânea, nem grafitti, nem projeto cultural que
se sustente sem conhecimento de história da arte. Na música, idem. Tem que ter
intimidade com a técnica. No caso das artes visuais, essa, aliás, é uma das
razões porquê não temos mais RPs dentro de organizações: é preciso conhecer o
mercado para atuar nele. Quem tem potencial para nos contratar, não percebe
este conhecimento e acaba fazendo tudo sozinho na maior parte das vezes.
Tanto estratégias de comunicação como de marketing
são como receitas de bolo: podemos dar a mesma receita para 10 chefs diferentes
e cada um trará a sua versão do bolo. Aqueles que tiverem mais intimidade com
os ingredientes e as técnicas, certamente vão nos surpreender. (Assim como o
amor que a mãe ou vó coloca na comida, também dá outro sabor!).
Ou seja: a teoria é a mesma para todos, o que faz
a diferença é como a aplicamos, qual a experiência que temos naquilo e com
quais ideias apostamos. Para conseguirmos ser criativos é preciso entender a
fundo o mercado onde atuamos. Criatividade tem muito a ver com talento, mas o
talento se desenvolve muito mais na pesquisa (transpiração) do que na
inspiração. Precisamos partir do pressuposto que não somos gênios, mas pessoas
comuns. E trabalhar duro para fazer a diferença.

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